Discurso sobre um caso de feminicídio: uma análise documental.

Autores

  • Luciana Virginia de Paula Santa Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Autor
  • Ana Paula de Assis Sales Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Autor

Palavras-chave:

Mulher, Violência de gênero, Feminicídio

Resumo

Introdução: Desde sua colonização, o Brasil estabeleceu-se como um estado patriarcal, permeado por uma cultura de força e poder atribuídas ao sexo masculino o consolidou uma relação de gênero desigual entre homens e mulheres e reforçou o domínio de homens sobre as vidas e corpos de mulheres. Essa premissa social, que permeia até hoje o inconsciente coletivo, fragilizou as mulheres da sociedade brasileira, expondo-as a uma série de fragilidades em relação aos homens. A relação de dominação do homem sobre a mulher, introduzida pelo patriarcalismo, impactou na violência de gênero que vitimiza as mulheres até os dias de hoje. A faceta mais cruel desta violência é o feminicídio, ou seja, a morte de uma mulher em razão do seu gênero, o qual passou a ser um tema mais profundo de debate a partir do ano de 2015, quando promulgada a Lei n.º 13.104 que incluiu a prática como nova qualificadora do crime de homicídio. Objetivo: O objetivo deste estudo foi analisar um caso de feminicídio de grande repercussão em mídias nacionais e internacionais, ocorrido em uma capital do Brasil no mês de julho de 2017. Método: Este estudo se caracteriza como documental, qualitativo, baseado no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) de Lefèvre e Lefèvre. Para tal, considerou-se os discursos midiáticos para o evento do feminicídio e para a descrição da mídia em relação a cada ator envolvido, o agressor, a vítima, o cenário e o desfecho. Foram exploradas as matérias publicadas na mídia, durante os primeiros sete dias pós-evento, em dois jornais online de destaque local. A coleta se deu com a utilização de um instrumento, onde foram exploradas as narrativas por leituras sucessivas, literalmente com as palavras descritas nos textos, buscando as ideias centrais convergentes e divergentes de cada jornal, para agrupamento e determinação do Discurso do Sujeito Coletivo referente ao feminicídio. Resultados: Os resultados levaram a três DSC, sendo o primeiro: A personagem mulher que foi morta; o segundo: O cenário de amor e crime na interrupção da vida, e terceiro: O homem agressor era do bem. Conclusão: A construção semântica desses discursos e sua interpretação, permitiu a compreensão do cenário do feminicídio na perspectiva da mídia, que interpreta e reforça, de acordo com os atributos de gênero feminino demandados pela sociedade, em que lugar social a mulher está, em relação a violência que a vitimiza. A violência contra a mulher, que culmina em um feminicídio, muitas vezes se inicia de uma forma sutil no cotidiano da vida, e é reforçada pelo modelo machista, sendo muitas vezes omitida e aceita. Cabe reforçar, que a mídia tem um papel ético e educativo a ser cumprido, o que na análise mostrou-se distante de tais premissas, reforçando situações que se exploradas de outra forma, poderiam reforçar políticas e redes de proteção a mulher vítimas de violência, mecanismos de mudanças que colocassem homens e mulheres em igualdade de direitos e minimizassem a violência de gênero contra as mulheres. O estudo serve de arcabouço teórico reflexivo para ampla discussão do feminicídio entre intersetores da sociedade.

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Publicado

29.11.2018

Edição

Seção

Resumos de dissertação ou tese de doutorado

Como Citar

Discurso sobre um caso de feminicídio: uma análise documental. Revista de Saúde Pública de Mato Grosso do Sul, v. 1, n. 1, p. 110, 29 nov.2018.

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