Abordagem intercultural e intervenção na Atenção Primária à Saúde: reflexões sobre vulnerabilidade e negligência familiar em comunidade indígena

Autores

  • Laura Mescouto Fialho Fé Xavier Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Autor
  • Jennifer Rodrigues de Oliveira Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Autor
  • Elizete da Rocha Vieira de Barros Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Autor

DOI:

https://doi.org/10.70630/rspms.v9.2026.344

Palavras-chave:

Saúde indígena, Negligência infantil, Interculturalidade, Determinantes sociais, Vulnerabilidade familiar

Resumo

Introdução: A negligência infantil é um problema de saúde pública cuja compreensão, em contextos indígenas, exige uma abordagem intercultural e análise dos determinantes sociais e históricos que condicionam as práticas de cuidado. Quando isolada, a concepção tradicional de negligência pode gerar interpretações reducionistas e culpabilizadoras da família, sendo fundamental compreendê-la como expressão de vulnerabilidades estruturais e limitações no acesso a políticas públicas. Objetivo: Analisar a atuação da Atenção Primária à Saúde (APS) no acompanhamento de uma família indígena Terena, residente em aldeia urbana, em situação de vulnerabilidade social. Apresentação da experiência profissional: Trata-se de um relato desenvolvido a partir do estágio de acadêmicos de medicina em uma Unidade de Saúde da Família. O caso envolveu uma criança de 9 anos com miíase e vacinação incompleta, identificado por notificação compulsória, sendo acompanhado por meio do Arco de Charles Maguerez com escuta qualificada, visitas domiciliares e mediação de um Agente Comunitário de Saúde indígena. Discussão: A avaliação familiar indicou risco máximo, acionando a rede de proteção social. Problematiza-se a aplicação acrítica de categorias normativas ocidentais diante de determinantes estruturais do núcleo familiar, como insegurança alimentar, vulnerabilidades multidimensionais e a sobrecarga de gênero no trabalho reprodutivo e de cuidado em ambiente urbano. Considerações finais: Defende-se uma abordagem baseada em vínculo, intersetorialidade e perspectiva decolonial, reforçando o papel da APS no cuidado territorializado e a importância da vivência prática para a formação de médicos com visão crítica, humanizada e comprometida com a equidade.

 

Referências

AYRES, J. R. C. M. et al. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: CZERESNIA, D.; FREITAS, C. M. (Org.). Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. p. 117-139.

BARROS, E. R. V. B (org). Metodologias Ativas: entre reflexões e pandemia. Campo Grande. Editora UFMS, 2022. Disponível em: https://repositorio.ufms.br/handle/123456789/4961. Acesso em: 19 fev. 2024.

BORGES, C.; TAVEIRA, V. R. Territorialização. In: GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. (org.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 241-247.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 16 jul. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 22 maio 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas. 2. ed. Brasília: FUNASA, 2002.

BRASIL. Decreto nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Institui o Programa Saúde na Escola - PSE, e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 6 dez. 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6286.htm. Acesso em: 16 mar. 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Linha de cuidado para a atenção integral à saúde de crianças, adolescentes e suas famílias em situação de violências: orientação para gestores e profissionais de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde).

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.130, de 5 de agosto de 2015. Institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 37, 6 ago. 2015.

BRASIL. Resolução nº 181, de 10 de novembro de 2016. Dispõe sobre os parâmetros para interpretação dos direitos e adequação dos serviços relacionados ao atendimento de Crianças e Adolescentes pertencentes a Povos e Comunidades Tradicionais no Brasil. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 247, p. 38, 26 dez. 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Insegurança alimentar na Atenção Primária à Saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN): dados de violência interpessoal/autoprovocada - Mato Grosso do Sul e Campo Grande. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinannet/cnv/violems.def. Acesso em: 29 out. 2025.

DIAS, L. C. Abordagem familiar. In: GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. (org.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 221-232.

FERNANDES JÚNIOR, J. R.; OLIVEIRA NETO, A. F. de. A migração Terena para o perímetro urbano de Campo Grande, MS (2003-2023). Interações, Campo Grande, v. 25, n. 3, p. 1-16, jul./set. 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/inter/a/zD5d5SmbqRNTfRXZ4jSRt6B/. DOI: https://doi.org/10.20435/inter.v25i3.4554

GARNELO, L.; PONTES, A. L. (org.). Saúde Indígena: uma introdução ao tema. Brasília: MEC-SECADI, 2012.

HIRATA, H.; KERGOAT, D. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, [s. l.], v. 37, n. 132, p. 595-609, 2007. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-15742007000300005

LAPARRA, D. Saúde e higiene pessoal dos moradores da Aldeia Kumene. [S. l.: s. n.], 2008.

MAHMUD, S. J.; MANO, M. A. M.; LOPES, J. M. C. Abordagem comunitária: cuidado domiciliar. In: GUSSO, G.; LOPES, J. M. C. (org.). Tratado de Medicina de Família e Comunidade: princípios, formação e prática. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 255-264.

MENDES, A. O.; OLIVEIRA, F. A. Visitas domiciliares pela equipe de Saúde da Família: reflexões para um olhar ampliado do profissional. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rio de Janeiro, v. 2, n. 8, p. 253-260, 2007. DOI: https://doi.org/10.5712/rbmfc2(8)64

MIGNOLO, W. El pensamiento decolonial: desprendimiento y apertura. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (org.). El giro decolonial. Bogotá: Siglo del Hombre, 2007. p. 25-46.

NASCIMENTO, A. C.; VIEIRA, C. M. N. O índio e o espaço urbano: breves considerações sobre o contexto indígena na cidade. Cordis. História: Cidade, Esporte e Lazer, São Paulo, n. 14, p. 118–136, jan./jun. 2015.

OLIVEIRA, A. da C. Crianças e adolescentes de povos e comunidades tradicionais: direitos e atendimento em perspectiva intercultural. Belém: Dialética, 2022. DOI: https://doi.org/10.48021/978-65-252-6335-9

PEDRAZA, D. F. Insegurança alimentar e nutricional de famílias com crianças menores de cinco anos da Região Metropolitana de João Pessoa, Paraíba, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, n. 4, p. 1511-1520, 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/1413-81232021264.06942019

PONTES, A. L. M.; REGO, S.; GARNELO, L. O modelo de atenção diferenciada nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas: reflexões a partir do Alto Rio Negro/AM, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 20, n. 10, p. 3199-3210, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/1413-812320152010.18292014

QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.

RIBAS, D. L. B.; CONCONE, M. H. V. B.; PÍCOLI, R. P. Doenças e práticas terapêuticas entre os Terena de Mato Grosso do Sul. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 160–170, 2016. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-12902016145547

SAVASSI, L. C. M.; LAGE, J. L.; COELHO, F. L. G. Sistematização de instrumento de estratificação de risco familiar: a Escala de Risco Familiar de Coelho-Savassi. Journal of Management & Primary Health Care, [s. l.], v. 3, n. 2, p. 179-185, 2012. DOI: https://doi.org/10.14295/jmphc.v3i2.155

SAVASSI, L. C. M. Produção de cuidado na ESF: estratificação e vulnerabilidade familiar. 2015. 45 slides. Disponível em: https://sites.google.com/site/leosavassi/aulas-e-portif%C3%B3lio/palestras-em-eventos. Acesso em: 29 out. 2025.

SORJ, B. Arenas de cuidado nas interseções entre gênero e classe social no Brasil. Cadernos de Pesquisa, [s. l.], v. 43, n. 149, p. 478-491, 2013. DOI: https://doi.org/10.1590/S0100-15742013000200006

WALSH, C. Interculturalidad y colonialidad del poder. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (org.). El giro decolonial. Bogotá: Siglo del Hombre, 2007. p. 47-62.

Downloads

Publicado

26.10.2026

Edição

Seção

Relatos de caso ou de experiência profissional

Como Citar

Abordagem intercultural e intervenção na Atenção Primária à Saúde: reflexões sobre vulnerabilidade e negligência familiar em comunidade indígena. Revista de Saúde Pública de Mato Grosso do Sul, v. 9, p. e026008, 26 out.2026.

Artigos Semelhantes

1-10 de 50

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.